Que época para se viver!

(a menina sisuda com os pés no chão é minha avó, em 1910)
Há algumas décadas, uma criança nada mais era do que uma pessoa pequena. O conceito recente de infância e toda a relação social, psicológica e afetiva que existe hoje entre adultos e crianças são fenômenos recentes e, até por isso, inconsistentes. Isso me permite acreditar que possamos estar vivendo o declínio de uma era vencida. Talvez seja apenas uma questão de tempo para que esses jovens nascidos hiperconectados passem a ditar as regras. Aos fatos:
Janeiro de 2012: Pedro Franceschi, brasileiro de 15 anos, desenvolveu extraoficialmente um aplicativo que habilitava a app Siri, do iPhone 4S, a entender o português.
Abril de 2012: Martha Payne, escocesa de 9 anos, dá início a um blog em que registra a apresentação e qualidade da merenda servida aos alunos de sua escola. Suas manifestações ganharam força e a menina foi responsável pelo início de um movimento de revisão dos lanches escolares em seu país.
Maio de 2012 (veja mesmo o vídeo antes de ler a matéria): Jack Andraka, norte-americano de 15 anos, conquistou o prêmio principal na Feira Internacional de Engenharia e Ciências da Intel. Seu feito? Um teste para detecção do câncer de pâncreas 68 vezes mais rápido, 400 vezes mais sensível e 26 mil vezes mais barato que o padrão usado hoje para detectar a doença, passível de cura para apenas 2% dos doentes com diagnóstico realizado em estágio avançado.
Julho de 2012: Isadora Faber, brasileira de 13 anos, dá início a uma página no Facebook para relatar o cotidiano da escola pública que frequenta em Florianópolis (SC). Funcionários, professores e até a diretora tentam impedir a menina de dar continuidade a seu trabalho. Diz ela: “estou fazendo essa página sozinha, para mostrar a verdade sobre as escolas públicas. Quero melhor não só pra mim, mas pra todos.”
Posso começar dizendo que é preciso somar a idade de pelo menos três dos personagens acima para chegar à minha. E que nunca fiz nada que chegasse nem próximo da mesma representatividade que o trabalho deles está tendo – e ainda vai ter, aposto – para eles mesmos e para a sociedade. Mas, qual a diferença entre a minha juventude e a deles? Acesso à informação e noção de coletividade, digo eu. Pensar no todo, sair do próprio umbigo, usar a vida para um bem maior, que vá além das suas causas próprias.
Minha geração nasceu no intervalo entre a juventude reprimida e a hiperconectividade atual. Quando começamos a usar a internet, ainda não tínhamos muita noção de até onde ela poderia nos levar. O acesso era restrito (podia mais quem tinha mais dinheiro para equipamentos e para o acesso propriamente dito), os recursos da própria web eram limitados e nossa cabeça ainda não estava minimamente preparada para lidar com a vazão de informação útil e inútil a que estávamos sendo expostos. Nem me passaria pela cabeça há 10 anos que hoje a internet seria meu meio de vida, meu supermercado, meu cinema e minha estante de CDs, pra dizer pouco sobre o quanto a rede hoje tem importância cotidiana pra mim, que fui apresentada à www em 1995. O que a web representa hoje pra quem estava nascendo em 1995?
Estou ansiosa pelo futuro. Quero muito viver um tempo mais generoso, mais libertário, mais igual pra todo mundo, e tenho certeza que a web é o passaporte de todas as cores e todas as classes para esse tempo. Meu conselho para a próxima geração é: use filtro solar. manifeste-se. Junte-se a quem pensa como você, faça a diferença de verdade. Deixar sua marca no mundo é muito mais do que desenhar um coração na árvore do parque.
PS: Álvaro Borba, muso desta escriba, entrevistou a jovem Isadora e escreveu sobre ela e sobre muitos outros assuntos relevantes e imperdíveis em seu blog.